segunda-feira, 6 de junho de 2011


IT


Resolvi começar este blog com uma referência do porque do blog conter a expressão "it".
Quando iniciei a minha pesquisa, pensei que fosse muito fácil encontrar o significado, uma vez que na minha adolescência (que não faz muito tempo) utilizávamos muito para falar de alguém que admirávamos.
Acreditam que eu encontrei apenas um texto que definia o que eu conhecia como "it"?
Resolvi dar todos os méritos ao autor e colocá-lo para inaugurar meu blog e aproveitar para dizer que as pessoas que se considerarem com o que eu entendo por "it" serão sempre bem vindas para postar, sugestionar, perguntar e sentirem este blog como se fosse seu!
Beijos e até!
Mel






“A GAROTA QUE TEM IT

Revista "Mag! Especial" - São Paulo, Janeiro de 2009
por EDUARDO LOGULLO



Mesmo que não tivesse alcançado sucesso desde as primelras gravações,Carmen Miranda jamais teria sido uma pequena normal. Com elegância, porte e doses exatas de atrevimento, ela era chamada nos programas de rádios como A Cantora Que Tem It. E it não é fácil de ter, nem de expllcar. Ter it é um dom.
Garota saltita. O nariz, garota arrebita. Garota pinta a pinta no rosto, na bochecha ou no queixo. Garota dança maxixe, ouve tango, prende o cabelo curto num rabicho. Na testa, cachitos em formas de vírgulas, prontos para atrair olhares de mocetões bonitões. Boquitas pintadas em forma de coração, apertadinhas, vermelhinhas. Axila: nem toda garota depila. Pó-de-arroz: muito, passado com esponja buf-buf da testa ao pescoço, buf-buf do pescoço à testa. Na testa também começam os chapéus, que nem atingem a nuca, porque ali é lugar de receber beijinhos roubados. Garota quer levar beijinhos ao pescoço, que exibe aquela penugem clara das costas sumindo catita pelo decote. Dentro do decote, mistérios, lenços, forros, sutiãs, calores, tremores, caminho do pecado, rota do buzanfã.
Antes de fazer 18 anos, a garota Carmen Miranda chamava a atenção por onde passasse. Tinha borogodó, atrativo físico especialíssimo. Olhar vivo. Muito vivo. Com 16 anos, depois de sair da escola de freiras na Lapa e de aprender pelas ruas um punhado de palavrões cabeludos, arranjou trabalho na loja de gravatas masculinas A Principal. Dominava laços, volteios e caimentos de tecidos, arrumava a vitrine. O dono português via na garota uma graça especial. Em seguida, a garota empregou-se na La Femme Chic, modelando chapéus com a francesa Madame Boss, contramestra da loja de modas na Rua do Ouvidor. Rápida, simpática, sestrosa, encantava clientes e vendia muitos chapéus, peça obrigatória na indumentária das mulheres da época. Jeitosa como poucas, a garota aprendeu a técnica e passou a criar modelos disputados, originais e diferentes. Lucrava 30 mil réis por mês, ajudando no lesco-lesco da casa.
A garota com graça aprendia as canções que a irmã mais velha, Olinda, cantava pra ela. Olinda bonita, Olinda vaidosa. Orientou Carmen em questões de cores, cortes, repuxes, efeitos. Olinda se vestia com bossa, cantava afinado e era romântica. Tão romântica que morreu de tuberculose aos 23 anos, triste pelo abandono do noivo. Tempos pré-penicilina, moçoilas suspiravam de amor, perdiam o apetite, ganhavam olheiras profundas e contraiam tísica pulmonar galopante. Vestir-se com apuro, ter porte, ser ousada e jamais vulgar, diferenciar pence de busto bem-feita de prega mal-ajambrada. Entender a importância do acabamento do forro e da casa dos botões, do contraste entre texturas. Noção de como exibir as pernas e os braços- Parecer natural nos retratos. Explorar tendências de estilo logo no inicio e abandoná-las em seguida, criar roupas que se transformassem em pecas cambiáveis: Carmen Miranda sabia tudo aos 19 anos. E pedalava a Singer muito bem.
No Carnaval, a pirata ou a toureira mais tentadora do pedaço. Tudo em cima, tudo podia. Corpo proporcional, bundas e peitos salientes, cintura fina, colo bonito, dentes inacreditáveis, boca de sorriso grande, olhos maliciosos. Fazia o footing no Leblon. Em casa, na Travessa do Comercio numero 15, Carmen ajudava a mãe a servir o almoço da pensão. Comer em pensão era costume bem luso-carioca. As famílias que moravam em casarões forneciam almoço e jantar numa grande mesa coletiva. Os mensalistas anotavam despesas na caderneta e saldavam no dia 30. Ou penduravam para sempre. Num desses dias, enquanto servia a bóia e cantarolava, foi ouvida pelo violonista e compositor Josué de Barros, autor de repertório conhecido nos teatros musicais do Rio. Estalo. Caramba! Ali surgia uma pequena do barulho, pequena que seria notada em pouco tempo, garota pronta para ser notável.
A seqüência de acontecimentos traz a confirmação daquele talento (a palavra é esta mesmo: talento). Da moça, da jovem, da garota, da cabrocha, da metida, da enxerida, da animada Carmen.
Ebulição em pessoa. Na primeira apresentação nos chamados "festivais musicais" em auditórios do Rio, ela atacou com dois tangos, Yo Quiero Un NovioMamma e Che Papusa. A platéia respondeu com ooohhs e aplausos. Muitos aplausos. "Que menina encantadora!" "Que moça guapa e talentosa!". "Que vivacidade!". Exclamações não faltavam. Aliás, Carmen Miranda sempre foi, desde o começo, um ponto de exclamação ambulante.
Pouco depois, o conspícuo, eminente, ilustre compositor Joubert de Carvalho ouviu a garota que já tinha it e entregou a ela uma marchinha chamada Pra Voce Gostar de Mim. Taí: era o que faltava na ebulição da artista vulcânica. A gravação: sucesso nacional, novidade, música ambígua que se prestava a canção romântica ou marcha de salão de carnaval. Carmen, a catita, nunca mais poderia ser a mesma. Ela virou terceira pessoa do singular, como o povo de antes gostava de se referir ao falar sobre si mesmo. Pessoa, persona, a outra. Carmen saiu do corpo de violão, do bojo de garota com curvas e nunca mais voltaria para a Travessa do Comércio, porque as histórias das coisas geniais são escritas assim. Inesperadas, rápidas, intensas. Mas falávamos aqui sobre outra coisa: o estilo da garota que tem it, como ela foi chamada nas primeiras reportagens da época. Carmen Miranda tinha it, tinha tutti-quanti. Carmen, o segredo do rabo do tatu. Coisas de gênio. "It" é isso: não saber explicar o que é exatamente isso. That's it.”